No diálogo entre a ciência e os saberes tradicionais, guardados como segredo e os cientistas que insistem em desvendá-los, emerge a dimensão jurídica do segredo. Esta é evocada por Maldonado (1999) em sua leitura da sociologia do segredo de Simmel, ao situar a “tensão entre o ideal da transparência a bem do pré-conhecimento das possibilidades da ação do outro e os níveis de ocultação que também fazem parte do processo interativo e da própria solidariedade social”. Essa tensão reflete diferentes modos de relacionar-se com o mundo natural, enquanto dimensão de alteridade. Desde a abordagem conquistadora da tecnociência – que encontra o seu corolário na engenharia genética – até as perspectivas integradoras presentes nos conhecimentos gestados pelas populações tradicionais e também em novas práticas tais como aquelas desenvolvidas pela permacultura, pela agroecologia, entre outras. Essas perspectivas ilustram duas maneiras distintas de relacionar-se com a natureza e seu segredo – leia-se sua capacidade de criar e regenerar a vida. A perspectiva da apropriação presente na busca da tecnociência e a da colaboração como atestam as cosmovisões tradicionais e a perspectiva da permacultura e agroecologia. Trata-se nesse último caso, de uma tecnologia que não se baseia na pretensão de dominar a natureza, mas que busca acompanhar o ritmo próprio de cada coisa. É exatamente esta dimensão da natureza como espaço propício à produção do imaginário do segredo e os diálogos suscitados pelo encontro/confronto entre essas duas formas de conceber a tecnologia e a relação com a natureza que constituem o eixo do debate a ser conduzido neste Fórum.