Em tempos de publicização do privado, o Ocidente parece viver o medo do segredo. Dos reality shows televisivos aos diários de internet, os meios de comunicação não têm restrições ao escancaramento do íntimo. Apresentando-se às câmeras, a sociedade foge do espelho: o medo de ver a si mesma é vencido pela exacerbação do mostrar-se ao outrem. Estariam os fenômenos comunicacionais sendo presididos por um Dionísio, com seu convite ao delírio coletivo através do mergulho nas intimidades individuais? Se Dionísio está à solta (Maffesoli), talvez se trate do mito que ‘carrega um nome que não é seu’ (Durand), ou seja, um mito que, para circular livremente no nível actancial da sociedade se degradou, perdendo suas características contestatórias. A normatização de Dionísio é flagrante na obrigação de se desnudar de que nos fala a mídia. Quais características de Dionísio foram escamoteadas pela mídia para permitir a institucionalização deste mito? Qual o lugar do segredo nesta sociedade que tem na instantaneidade das comunicações seu maior trunfo? Quando se trata de comunicação digital, na era da publicização do privado, o imaginário ocidental experimenta uma relação paradoxal com o segredo. Dos telejornais, telenovelas e reality shows aos diários virtuais, Twitter e Wikileaks, as mídias não têm limites quanto à exibição da intimidade. Mostrando-se às câmeras, como simulação, figuração ou substrato do consumo, a sociedade foge do espelho, mas o medo de ver a si mesma é vencido pelo imperativo da visibilidade. Cabe à antropologia decifrar o regime simbólico prevalente na sociedade midiatizada. Por um lado, Dionísio promove o êxtase tribalista cimentando as intimidades individuais (Maffesoli). Por outro lado, os indivíduos se agregam virtualmente sob o reflexo obsceno das “máquinas de Narciso” (Muniz Sodré). Mas escapando ao dualismo conceitual, através dos “plurais de Psiquê” (Durand), Hermes-Mercúrio (protetor dos jornalistas, comerciantes, viajantes, ladrões), norteia uma hermenêutica interpretativa que reconhece e ultrapassa a “coincidência dos opostos”, e contribui para uma decifração da caixa preta da cultura tecnológica.